Na era do streaming, as telenovelas vão continuar no meio de nós.

"A Herança" é o novo título que a SIC apresenta em horário nobre. Com o diretor de programas, os argumentistas e a produção, confirmámos: este melodrama em episódios não vai parar, bem pelo contrário.

Ao chegar aos estúdios da SP Televisão, o Observador é recebido com uma dúvida: O que é que estão aqui a fazer? A pergunta não é feita em tom agressivo, antes representa uma realidade: a telenovela é um produto de tal maneira habitual e constante que, dizem-nos, deixou de ser considerado notícia. Neste caso, falamos de A Herança, a grande aposta da SIC para o início deste ano, que se estreia esta segunda-feira, dia 27 de janeiro no horário nobre também conhecido como depois do Jornal da Noite.

Tem nomes mais do que populares, como Patrícia Tavares, Bárbara Branco ou Virgílio Castelo, numa história que envolve dinheiro, inveja, vinganças e descendências desconhecidas. Mas é uma estreia que traz também uma questão associada: com a ubiquidade do streaming em Portugal e um crescente consumo de conteúdo nas mais variadas plataformas a qualquer hora e em qualquer sítio, em que lugar fica um formato que conhecemos desde 1977, após uma exportação brasileira que se transformou numa pequena grande revolução no pequeno ecrã chamada Gabriela, Cravo e Canela? Por enquanto, fica onde sempre esteve: A novela é um género transversal, que vive uma fase de criatividade fulgurante, assegura ao Observador o diretor de programas da SIC, Daniel Oliveira.

De volta às gravações: a uma sexta-feira, o ambiente não costuma ser de grande azáfama, já só se pensa no fim de semana e ninguém julga a atitude. No grande armazém que serve de estúdio da SP Televisão, há uma certa calma no ar. Técnicos aproveitam para pôr o cigarro em dia, atores nem vê-los. Ou estão ainda no set, ou já terminaram o dia, que costuma começar bem cedo. Em meados de outubro, esta A Herança, escrita, pela primeira vez em conjunto, entre Sandra Santos e Alexandre Castro, começou a ser colocada de pé. Literalmente. O plano era simples e já bem conhecido naquela casa: assim que a produção da novela Senhora do Mar terminou no passado verão, colocou-se em marcha o desenho e construção dos novos cenários de A Herança. Uma economia de espaço, sem que nos sejam revelados os orçamentos envolvidos.

Neste caso, falamos da estação de televisão privada que, a par da TVI, é um dos grandes motores de telenovelas no país, desde que a RTP deixou de as produzir, e passou a colocar o foco nas séries e no cinema. E a verdade é que, desde 2023, a SIC tem um canal próprio para este formato, o SIC Novelas, que vai em linha com o pensamento de Daniel Oliveira, partilhado com o Observador: Vemos a Turquia ou a Coreia do Sul a competirem com a experiência da América Latina, nomeadamente do Brasil. A indústria de ficção nacional forjou-se, em grande medida, aos ombros das novelas. Há muito público para o formato, embora os consumos não sejam sempre feitos de uma forma tradicional. Temos antecipado episódios, temos criado spin-offs ou segmentos exclusivos de conteúdos do canal generalista, por exemplo.

"Vemos a Turquia ou a Coreia do Sul a competirem com a experiência da América Latina, nomeadamente do Brasil. A indústria de ficção nacional forjou-se, em grande medida, aos ombros das novelas. Há muito público para o formato, embora os consumos não sejam feitos todos de uma forma tradicional." Daniel Oliveira, diretor de programas da SIC.

É outra forma de dizer que o mundo está a mudar. Uma semana depois da visita aos vários décors onde a família Novais, que detém uma poderosa fábrica de papel, vai passar maior parte do tempo nesta narrativa, a Netflix anunciava que Portugal seria um dos países onde os preços iriam aumentar. Globalmente, a plataforma/produtora ganhou 18,9 milhões de novos subscritores no último trimestre de 2024 e lidera o mercado de streaming com 301,6 milhões de assinantes. No mesmo dia em que A Herança se estreia na SIC, a Max lança a primeira novela brasileira original. São 40 episódios, com produção da Coração da Selva e argumento de Raphael Montes. Ou seja: a competição está em todo o lado.

Um relatório do Observatório Europeu do Audiovisual de 2020, que só saiu um ano depois, veio reforçar aquilo que tem sido uma realidade no panorama nacional: Portugal era, então, o quarto país europeu com mais horas de ficção audiovisual em 2019 e o segundo onde as novelas foram o prato forte do menu televisivo, entre 2015 e 2019. A SP Televisão estava no sétimo lugar das que mais produziram o género nos cinco anos anteriores. Três anos depois, o mesmo relatório indicava que as séries de TV com 52 ou mais episódios representavam 60% de horas produzidas na Europa e as telenovelas continuavam a liderar. Os números têm impacto, mas só serão surpreendentes para quem não está atento.

Num panorama televisivo onde reina o futebol, os game shows e os reality shows, a telenovela tem sete vidas. Produto maldito para os mais jovens e voz de companhia para milhares de idade mais avançada. Será esta de facto a realidade? Ou será que não passa de um velho preconceito? Os principais autores de A Herança, Sandra Santos e Alexandre Castro, que se cruzaram com a visita do Observador, acreditam que o formato está a conquistar um novo público. E que, por consequência, o tal preconceito, surgido de uma realidade antiga, está a desaparecer. As audiências não são iguais, mas temos vários estudos que dizem que existem diferentes faixas etárias para diferentes novelas. Já não é a ideia da televisão de companhia, de se jantar e ver um episódio. Não. As pessoas veem depois de jantar, puxam para trás na box ou veem no site. E também deixou de ser um formato para pessoas mais velhas. Creio que continua a haver público porque continuam a encontrar pontos de identificação sociocultural, argumenta Alexandre Castro, que tem trabalhado com a SIC em séries e novelas como Eleitos, Codex 632 ou Nazaré.

"Quando o streaming apareceu, houve gente das novelas a imitar séries, são dois estilos que não se misturam, claro que o melodrama pode estar presente, mas uma novela que imprima um tom e um ritmo de série não existe, não vai dar certo." Alexandre Castro, co-autor da novela A Herança.

Sandra Santos, que costuma escrever com Alexandre Castro e também é autora de novelas como Sangue Oculto ou Vidas Opostas, volta ao exemplo dado por Daniel Oliveira: as novelas turcas. Numa rápida pesquisa, percebe-se do que falam, ou não estivéssemos a falar de um formato que tem conquistado terreno nas últimas duas décadas. As chamadas diziler conseguem estar tanto no mercado dos Balcãs como no da América Latina. A razão prende-se a algo que os dois autores estão a tentar recuperar para Portugal se é que alguma vez deixou de existir nas novelas nacionais: As novelas turcas mantêm os princípios que têm feito falta à ficção, como a união familiar, os conflitos quase palacianos e os amores puros. Tem havido uma banalização das relações amorosas e o que percebemos com a fama das novelas turcas é que as pessoas ainda querem o amor épico, diz Sandra Santos. Fenómenos como This Is Us (com seis temporadas, está disponível em Portugal na Prime Video), um dramalhão familiar ao longo de diferentes gerações e com o amor em todas as suas formas como protagonista, joga de forma vitoriosa neste campeonato melodramático. Ou Anatomia de Grey, que já vai na 21.ª temporada e que parece nunca mais acabar. Ainda assim, nada de confundir tais séries com A Herança, segundo a recomendação de quem a escreve. Quando o streaming apareceu, houve gente das novelas a imitar séries, são dois estilos que não se misturam, claro que o melodrama pode estar presente, mas uma novela que imprima o tom e o ritmo de uma série não existe, não vai dar certo, remata Alexandre Castro.

José Mata é outro dos protagonistas de A Herança, interpretando uma personagem no centro de um triângulo amoroso.

As grandes histórias de amor são, por isso, para manter. E o ritmo frenético de escrita também. Tanto Alexandre Castro como Sandra Santos estão, neste momento, a escrever uma média de sete episódios por semana. Durante a visita guiada, os guionistas foram desvendando um pouco da trama e pequenos truques técnicos. Alguns dos cenários construídos servem, por exemplo, para dar profundidade ao plano. E não é suposto nenhum ator lá entrar. Portanto, quando vir Pilar Novais (Mariana Monteiro), filha de Raul e Brígida Novais, e diretora financeira da fábrica de papel, a discutir com a irmã que não devia sê-lo Sofia (Patrícia Tavares), que deixa de trabalhar numa oficina para passar a ser herdeira de um negócio milionário, esteja atento por onde andam.

As dúvidas e as fofoquices que giram sempre em torno deste tipo de conteúdo vão continuar a surgir na imprensa cor de rosa, mesmo que os números não sejam os de outros tempos. Só que essa conversa, tal como defende quem manda e produz este formato, é agora mantida nas redes sociais. Por outro lado, uma grande fatia da Herança vai passar-se nos quatro cantos que o Observador visitou.

Sobre os exteriores, pouco se pôde saber, porque a intenção da SIC, dos autores e da SP Televisão é de que a novela não seja de nenhum local específico. Sabe-se, porém, que passou por Dornes, em Ferreira do Zêzere, e por Arruda dos Vinhos. Mas digamos que não é uma novela nem dos Açores, nem da Beira Alta. É de Portugal.

"Continua com números muito expressivos e a ter a capacidade de juntar as famílias em frente do ecrã. As plataformas têm um catálogo cada vez mais próximo daquilo que temos nas generalistas, com exceção da informação" Pedro Lopes, diretor geral de conteúdos da SP Televisão.

A SIC pretende manter o modelo de parceria com o streaming. Antecipam-se episódios, criam-se spin-offs, segmentos exclusivos e conteúdos que derivam do canal generalista. Com um olhar mais atento, é normal até vermos peças de telejornal dedicadas às novas estreias do canal. Há toda uma máquina que se alimenta da novela e que a alimenta. E diz alguma imprensa que a TVI terá novo conteúdo neste formato em março de 2025, estando no ar a Fazenda, com Margarida Corceiro como protagonista.

A novela tem ainda como matriz o retrato da sociedade em que se insere, que espelha no ecrã as suas gentes, costumes, terras, tradições, problemas. Em Portugal, temos evoluído exponencialmente na qualidade dos nossos projetos. O formato novela é um catch all, não antevejo que isso possa sofrer alterações do ponto de vista do conteúdo, destaca Daniel Oliviera, afirmando que é um produto que continua com um elevado valor de exportação e de profissionalização do setor.

Pedro Lopes, diretor geral de conteúdos da SP Televisão, não só concorda como vai mais longe: nem a televisão generalista está prestes a morrer, nem a novela vai a lado nenhum. Continua com números muito expressivos e a ter a capacidade de juntar as famílias em frente do ecrã. As plataformas têm um catálogo cada vez mais próximo daquilo que temos nas generalistas, com exceção da informação. E quem o diz não parece recear que a cópia possa esmagar o original.